9.19.2008
Novo endereço!!!
Este blog mudou para este novo endereco
www.umsonhoemmovimento.blogspot.com
VIVA A VIDA!!!
12.14.2007
Habebe's

11.26.2007
Tasman Palace

Quando você carrega uma mochila nas costas é como se tivesse o universo inteiro ao seu alcance, convicto de que é mesmo capaz de realizar o que quer que seja, onde estiver. O mundo todo cabe numa mochila. Se vai a algum lugar começar uma nova vida e carrega tão somente uma mochila, haja o que houver, tudo o que conquistar terá um inesquecível sabor e sua mochila se tornará cada vez mais leve e fácil de se carregar.
Pisei em Queenstown numa ensolarada, porém fria, tarde de quarta-feira. Fui fazer o que normalmente se faz ao chegar em uma nova cidade, procurar onde dormir. Me dirigi a um albergue e descarreguei minha companheira de viagem. Já com o sono garantido, realizei a segunda necessidade básica dos viajantes: encher a pança. Para celebrar optei pelo meu prato preferido, pizza. E não poupei esforços, comi uma inteira. Assim que consegui andar dei início à minha saga nesta cinematográfica cidade nas montanhas.
Para minha realização e bem-estar precisava encontrar tão somente duas coisas: casa e trabalho. Comecei pela casa. Pesquisei nos jornais, que aqui são de graça, e nos murais de recados. Como cheguei em plena alta temporada de inverno, haviam poucas vagas. Entrei em contato com um brasileiro, Rodrigo, que anunciava um quarto. Me explicou o caminho e pela primeira vez eu subi a ladeira de Fernhill. A primeira coisa que reparei na casa foi a sensacional vista do Lago Wakatipu e das montanhas que cercam Queenstown. A primeira coisa que senti foi frio, já que as casas não tem aquecimento e tampouco são construídas com tijolos, mas sim de um compensado que mais parece papel.
Infelizmente o quarto seria ocupado por outros brasileiros, mas como Rodrigo e Lucas, o outro morador, foram com a minha cara, me deixaram ficar na sala por uns dias até que arrumasse outro lugar. Busquei minhas coisas no albergue e me mudei para a fria sala da Tasman Palace, como é conhecida esta casa laranja na Wynyard Crescent, no alto de Fernhill. O nome remonta à epóca em que a casa era decorada com centenas de latas de cerveja da marca Tasman. Instalei-me no chão mesmo em pleno inverno do hemisfério sul nesta latitude de 45° onde as temperaturas baixavam de –5 na madrugada. Juntei uns cobertores, arrumei um travesseiro, mantive a lareira acesa e agradeci muito toda noite antes de dormir.
Após duas semanas na sala, dei sorte de poder mudar-me para um dos quartos e reconheci uma verdadeira motivação que me leva a viajar pelo mundo. É a satisfação de entender que onde quer que eu esteja, na situação que for, poderei encontrar pessoas dispostas a ajudar. Da mesma forma, eu sempre posso oferecer algo ou mesmo retribuir a outra pessoa, em outro lugar, num outro dia e fortalecer, assim, a corrente do bem. Isto me faz seguir adiante.
Agora eu poderia buscar um emprego.
10.12.2007
A Terra do Nunca

Interessante como a música brasileira é valorizada. A todo tempo escuta-se uma de nossas canções. Seja um samba de Ary Barroso, um reggae da Tribo de Jah, uma bossa de Vinicius ou um funk de um desses bondes. No que se compara a beleza feminina, o Brasil encontra poucos adversários e é um dos motivos que torna mais fácil nossa aceitação como invasores, já que sempre trazemos boas amostras. País conhecido por suas conquistas no futebol, mas também na fórmula 1, no tênis, no iatismo, no vôlei, no surf e no skate. E por um ou outro escritor, pintor, estilista, cozinheiro, arquiteto, pesquisador e cineasta.
Isso tudo me faz lembrar minhas andanças. A infância na mega-louca São Paulo e as férias em Minas e na Pedra do Baú. O Norte do Paraná da soja e do gado, das trilhas de bike e das paredes de basalto e arenito. As praias de Santa Catarina e sua Ilha da Magia. As tantas outras praias, do Rio de Janeiro, Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí. Os mergulhos em Bonito. A Chapada dos Diamantes, que transforma em realidade todo delírio, e vice-versa. Iguaçu, lugar ideal para um banho nu. Nossa mata, a Atlântica, que faz feliz quem ainda pode usufruí-la. Nossa floresta, a Amazônia, o gigante incomodado.
10.04.2007
Aotearoa
Existem lugares pelo mundo abençoados por sua terra e outros pelo seu povo. Raras exceções os que tiveram a sorte de ter os dois. A Nova Zelândia foi infeliz pelas proporções de seu território. Embora rico, fértil e de indescrítivel beleza, resume-se a duas ilhas que juntas medem 270.500m2, menor que o Japão e pouca coisa maior que o estado de São Paulo. Seus 4 milhões de habitantes transformaram este lugar numa próspera nação e sua sorte, creio eu, veio pelo quesito humano.
Sabe aquele cara que você conhece, se é que conhece, que trata bem todo mundo, paga suas contas em dia, não fura filas, corta a grama do jardim e ainda passeia com os filhos no fim de semana? Esse é mais ou menos o perfil do cidadão kiwi, como é chamado o nativo, que tem muito orgulho de suas tradições, como a tosa do carneiro, o filé de peixe com fritas, o rugby e os esportes radicais, como o montanhismo. Edmund Hillary, kiwi que alcançou o cume do Everest pela primeira vez, em 1953, junto com o nepalês Tenzing Norgay, é homenageado na nota de 5 dólares.
A sensação nacional é a seleção de rugby, os All Blacks, que são praticamente imbatíveis. Talvez pelo Haka, ritual que realizam antes das partidas e que realmente assusta qualquer um que já foi criança. Ao invés de campos de futebol aqui encontram-se gramados com enormes traves em forma de Y, mas o esporte brasileiro vem se popularizando e os mais novos estão substituindo a bola oval pela redonda. Agora, se por acaso o Brasil resolvesse jogar rugby, no mínimo daria muito trabalho no começo. Contudo, eles são insistentes e sonham em breve participar de uma copa do mundo.
Fico impressionado com a relativa igualdade social que existe neste país. Obviamente existem os que andam com os modernos carrões e os que transitam em jamantas enferrujadas. Agora, se este último resolve colocar um modelo novo na garagem, tem plenas condições. Além disso, parece-me que muita coisa é mais coerente. Caso você esteja andando sem cinto de segurança no banco do passageiro, quem leva a multa é você, não o motorista. É expressamente proibido o consumo de bebidas alcoolicas nas ruas, sendo este ato punido com multa. Pode-se apenas beber nos bares autorizados e em sua própria casa. A primeira vista, estranho, mas pensando bem, isto não evitaria algumas situações embaraçosas no Brasil? Punição com multa também para quem urina em via pública e para quem anda de bicicleta sem capacete. Em última análise, não se trata pura e simplesmente de privação de liberdade e sim de tentar equalizar problemas.
Acredito que o cidadão brasileiro insiste em pensar que por si só não faz diferença no futuro da nação, que não adianta fazer sua parte para transformar hábitos que herdamos de séculos atrás, como se uma árvore achasse que não fosse capaz de formar uma floresta. Vejo no povo neozelandês um exemplo de como organizar uma sociedade igualitária pensando no coletivo. Quando cada um usufrui de seus deveres, garante seus direitos e ajuda a construir. O que tenho aprendido é sobre integridade e dedicação. A ação é ser uma pessoa boa, como Doug falou, no sentido de uma atitude ativa e altruísta. A reação: talvez os melhores dias de sua vida.
9.07.2007
A capital brasileira dos esporte radicais

8.18.2007
"Welcome to New Zealand"

Um ano... Um ano que custou a passar. Dediquei-me a tentar de várias maneiras transmitir um pouco do muito que vi pelas andanças no Brasil. Exposição de fotos, edição de vídeo, matéria pra revista, jornal, rádio e TV. Durante esse tempo, o mapa-múndi me apontava diversas possibilidades, mas qual seria a próxima viagem?
Não sem certa angustia e indefinição que surgiu a hipótese de vir para esta terra distante, minúscula e gelada. Precisei vender minha moto e parcelei a passagem. O que vim fazer aqui? Em primeiro lugar, fui atraído pela exuberante riqueza natural. Embora as duas ilhas que formam este pais sejam pequenas, foram privilegiadas por formações magníficas, de praias a montanhas, lagos e geleiras. Um lugar perfeito para fazer o que mais gosto: pedalar e escalar. Aqui ainda vive pouquíssima gente, em torno de quatro milhões de pessoas e, por ser um pólo turístico, atrai pessoas do mundo inteiro, criando boas oportunidades de emprego. Foi assim que a Nova Zelândia brilhou no mapa.
Pra chegar aqui tive que atravessar um largo oceano, o da paz. Para tanto fui ate Santiago e de lá passei mais 13 horas voando pra aterrissar na Oceania. O que eu ainda não entendi é porque durante todo o vôo permaneceu completamente escuro do lado de fora. Uma longa e infinita noite, sobrevoando o mar. Veja bem, sai do Brasil no domingo as 16hs, vivi 22 horas contando vôos e conexões e cheguei em Auckland na terça-feira, 7hs da manhã, atordoado e confuso. Ai sim vi o sol.
Esperava-me um desafio, convencer a imigração das minhas intenções, já que não poderia dizer que vim para trabalhar, pedalar e escalar. Falei somente que vim pra pedalar e escalar, o que convenceu o oficial maori com cara de mau, que carimbou meu passaporte e disse a tão sonhada frase: “Welcome to New Zealand”, que soou como uma musica dos Beatles aos meus ouvidos. Pensei em repetir o gesto de Pelé, mas achei que não pegaria bem, recolhi minha mochila e fui ver o que me esperava do lado de fora.
Embora eu já tenha viajado até que mais ou menos, foi a primeira vez que encarava o tal do “primeiro mundo”, sempre optei por destinos menos sofisticados. A primeira vista, tudo muito organizado, preservado e desenvolvido. Sem os barracões, os mendigos e as crianças nas ruas que normalmente se vê na Bolívia ou na Índia. Alem da mão inglesa, que inverte o cérebro e que quase me fez ser atropelado por um ônibus. Encontrei o albergue que havia reservado e, como um bom sinal, ele se localizava numa linda praça cheia de plátanos, a mesma árvore que plantei junto com minha mãe na frente da janela de meu quarto em nossa casa em Londrina. Já comecei a perceber como é o neozelandês, em geral muito educado e rígido, gosta das coisas muito certas e respeita as regras. Fanáticos por rugby e beberrões com orgulho. O povo nativo é o maori, que vivem por aqui há muitas gerações e produzem ótimos seguranças de boate, verdadeiros guarda-roupas.
Optei por rumar em direção ao sul de trem, estilo clássico, sem preocupações e bem contemplativo. De Auckland a Wellington, a viagem de 12 horas atravessou toda a ilha norte passando por diversas paisagens, cenários extasiantes. Conheci um simpático velhinho que se sentou ao meu lado e foi me contando historias pelo caminho, como a da erupção de um vulcão que destruiu totalmente uma cidade na década de 50.
Na capital, tive sorte de encontrar um albergue muito alto-astral. Pelos albergues mundo afora têm-se a chance de conhecer pessoas de todos os lugares, trocar experiências, sair para uma balada, comer junto, compartilhar. Fiquei três noites e dali segui para a ilha sul, atravessando o temeroso Estreito de Cook numa balsa durante 2 horas. Pisei em terra firme para tomar outro trem, que seguiria pela costa leste. O auge do percurso foi a passagem por Kaikoura, uma belíssima região de praias onde inúmeras focas ficam sobre as rochas a beira-mar.
A terceira cidade que conheci, Christchurch, é famosa pela sua belíssima catedral, uma suntuosa construção gótica. Passei duas noites e parti de ônibus rumo às montanhas. Agora sim eu estava vendo o que tanto esperei: as paisagens de tirar o fôlego! Cadeias de montanhas imensas, repletas de neve, com matizes brilhantes e nítidas, além de simplesmente perfeitas. Lagos imensos que formulavam uma oposição entre a verticalidade branca e a horizontalidade azul. O ônibus serpenteava pela estrada e a janela transformou-se num plástico quadro em movimento.
Desci em Queenstown, a capital mundial dos esportes radicais, onde estou sentado num sofá, numa casa de dois andares, num bairro chamado Fernhill, tentando manter-me aquecido, já que a temperatura lá fora esta entre –1 e 5 graus. Faz pouco mais de um mês que cheguei a Nova Zelândia.
Um Sonho em Movimento pelo Brasil
5.23.2007
3.17.2007
Videos
http://www.youtube.com/watch?v=2qHzDdKrd6Q
Primeira parte da pedalada
http://www.youtube.com/watch?v=1za818JeY3w
Última parte
http://www.youtube.com/watch?v=UlC9GOQN4bE
12.17.2006
EXPEDIÇÃO REDESCOBRIR



A EXPEDIÇÃO REDESCOBRIR teve o patrocínio da VZAN e apoio da AZTEQ e MOCHILABRASIL.
OBRIGADO!
VZAN, Silnei e Claúdia (MochilaBrasil), Augusto (Mundo Terra), Point 700, Minha mãe e meu irmão, Andressa, Dete, Vitor e Rafa, Tia Inéia, Todos os Editores do Mochileiros.com, Os que compraram as rifas e mais ainda os que as venderam, Todos os irmãos e irmãs, Rosana Aranha Figueiredo, Nick e Negão, Claúdia - Trilha e Cia, Aventura.com, Adilson Koyzumi, Bruno Gehring, Leo Delai, Edson Ferracini e Rodrigo, Rafael (Lan house/Porto Velho), Liliane (Diário da Amazônia/Porto Velho), Seu Wilson (Barco Dois Irmãos), Walter Furikuri e família (Manaus), Marcos Tupi (Trajetoria/Manaus), Lane (Manaus), Rodrigo-Amigo do Walter (Manaus), Tainá (Porto Alegre), André-Amigo da Tainá (Manaus), Mestre Moacir (Manaus), James - Terra Preta (Manaus), Manuela (Correio Amazonense/Manaus), Maigua e Luis (Abra144), César - irmão do Walter (pelo tripé/Manaus), Márcia (Projeto Peixe-Boi-INPA/Manaus), Filipe (Insetos-INPA/Manaus), Leonor (IPA/Manaus), Marcelo Paes e família (Belém), Sérgio Batista: Rita, Cidália, Cidalinha, Cirlândia, Jonathan e Gabriel (Belém), Eart/Iguana (Belém): Silvio, Durval, Daniel, Lôro, Dani, Junior, Cristine, Susane, Diego, Pacoval..., Fábio - Mecânico (Belém), Henrique Beckmann e família (São Luis), Comandante Coronel Pinheiro Filho-PMMA (São Luis), Luis Senzala e Maiane (Acapus/São Luis), Franklin (Hippie/São Luis), Moisaniel (PM/São Luis), Paulão (Jornal Pequeno/São Luis), Dona Antonia (Reviver/São Luis), Dona Maria de Jesus, Ribamar e família (Travosa), Viviane Medeiros (TV Mirante/São Luis), Luis da biologia (São Luis), Léo e Mão (Barreirinhas), Karen Cristina e Elenilton (Barreirinhas), Thiago (Restaurante do Carlão/Barreirinhas), Marcos (Pousada Jagatá/Tutóia), Clayce e Clayton (Parnaíba), Franklin (FC Peças/Chaval), Valdo e Beto (Pousada Tirol/Jeri), Papagaio e Tatu-Bola, Aneeka, Katarin, Cristin, Zeta, Nick, Sara, Nigel, Sharon, Noam, Adenda..., Nadia e Liroy, Cassiano (Cyber Cachaça/Jeri), Terremoto (Chile), Luis Torres e Vera (Jijoca), Galera da Barra das Moitas, Adonias (Companhia dos Pescadores/Caetanos), Eduardo (Cia Aventura/Fortaleza), AABB (Fortaleza), Leandro e família (Canoa Quebrada), Nonato (PRF-Aracati), Henrique (Albergue da Costa/Natal), Rapa Nui (Natal), Elias-Londrina (Pipa), Marilia (Aconchego/Pipa), Armando-Tartarugas (Pipa), Anderson (Ibama/Brasilia), Seu Tico, Maciel e Nazaré (Pedra da Boca), Cláudio Siddhananda-Recife (Campina Grande), Sandro (Santa Cruz do Capibaribe), Álvaro (LTG Peças/Caruaru), Manoel (Pousada Caruaru), Fábio-Self Service do Ferreira (Caruaru), Hare (São João de Caruaru), Tony e família (Recife), Jayme (Recife), Rui Marçal (Recife), Jurema e Luciene (Canto do Mar/Porto de Galinhas), Alberto, Ana e Ivonete (Albergue do Alberto), Dra. Monalisa (Pref. de Ipojuca), Renato (Maceió), SEEL-Estádio Rei Pelé (Maceió), Márcia Cruz-Conexão Nordeste (Aracaju), Adriana (Aracaju), Samuel e Júnior (Sauípe), Pé Duro, Carro Velho, Esmeralda e Geu (Sauipe), Mário e Cava (Aldeia Hippie de Arembepe), Luis-triatleta (Itapuã), Mariana, Beatriz e família (Salvador), Cadu (Jardim Brasil/Salvador), Vanessa-NasAlturas (Lençóis), Egberto, Adilson (Vale do Capão), Júlio e Dayse (Salvador), Robério (Lendas do Capão), Folha de Londrina, Gravidade Zero, Marina Casagrande e toda pessoa que eu tenha encontrado, conversado e esquecido.
8.16.2006
A Bahia de nossos sonhos
Suor e lágrimas, sorrisos e dor. Chuva e sol, felicidade e melancolia. Planejamento e acaso, sossego e agonia. Confiança e dúvida, novos amigos e solidão. Dia após dia, quilômetro por quilômetro, o caminho trilhado até chegar em Salvador, mais que tudo, valeu a pena.Foram exatamente 6 meses, do dia 24 de janeiro ao dia 24 de julho, cruzando 12 estados e redescobrindo as nuâncias deste Brasil que é, fundamentalmente, múltiplo. Interiores de pessoas muito sábias em suas simplicidades e capitais que fundem o caos urbano e formidáveis heranças culturais.
Para completar a viagem, pedalei de Aracaju até Salvador em 5 dias, cruzando toda a extensão da belíssima Linha Verde, rodovia que serve de opção à BR-101 e corre mais rente ao litoral. Pra quem esperava moleza, se deu mal. A Linha Verde vendeu caro a conquista de suas subidas e descidas, sequer haviam trechos planos, a não ser no último dia, depois que passei pela Praia do Forte.
Para minha surpresa, na primeira noite, ainda no estado de Sergipe, quando cheguei à simpática cidade de Estância, fui reconhecido por uma garota que havia visto a entrevista que fizeram comigo na TV. Um acontecimento inesperado, ela só disse: "- Te vi na TV, queria muito te conhecer!" Não tive reação, algo simplesmente inusitado e inédito para mim. De alguma forma aquilo me encheu de entusiasmo pelo trabalho que vim realizando.
Cruzei a última divisa e cheguei no último estado desta expediçao. Agora as placas marcavam a derradeira quilometragem. Salvador ficava cada vez mais próximo, 315 km, 275 km, 231 km, 174 km... 55km, 10 km, 1 km...
Quando escureceu na terceira noite, estava no meio da estrada e tinha que chegar em Sauípe. Não enxergava nada e ainda meu pneu furou. Segui pelo faro até encontrar a pequena vila. Perguntei por hospedagem e logo disseram que ali não havia nada do gênero. Mas informaram: "- Pode acampar ai na praça mesmo, ali ninguém lhe bole." Me ofereceram um bom banho e um espaço para guardar a bicicleta de noite. Comi um belo PF e fiquei conversando com as crianças que estavam por ali e que logo viraram bons amigos, muito prestativos e cheios de histórias engraçadas, sem falar nos apelidos: Esmeralda, Pé-duro, Pato Roco, Carro Véio, Sariguê, Limão e Pum. O pai de um deles me ofereceu o espaço que havia em sua garagem e passei a noite por ali.
A última parada, escolhida ao acaso no mapa, foi Arembepe. Conhecida pela linda praia e pela Aldeia Hippie que sobrevive aos anos com algumas casas e sem luz elétrica. Conheci pessoas muito legais e uma garota especial: Vitoria, o mesmo nome que usei para batizar minha bike. Dali restava muito pouco para Salvador e, devido à chuva que caiu, passei duas noites numa cabana.
Bem-vindo à Salvador! Finalmente, aquele lugar que por tanto tempo ficou tão distante estava lá, sob meus pés. Difícil explicar a sensação por este objetivo cumprido. Relembrava cada momento que passei nestes meses e sentia uma enorme vontade de continuar rodando, tive a certeza de que a viagem não pararia ali. Mesmo que tenha minhas obrigações a fazer, coisas para realizar onde moro, logo voltarei à estrada, onde descobri uma sala de aula dura, porém recompensadora.
Mais que tudo, ali em Salvador, sentado assistindo o pôr-do-sol no Farol da Barra, tive uma certeza. Não importava estar ali. O que importou mesmo foi cada ação ao longo do caminho.
7.18.2006
O começo do fim

Em Maceió conheci o Renato, ciclista veterano que já pedalou até São Paulo e Fortaleza e, com 70 anos, foi de bicicleta até o Rio de Janeiro. Uma salva de palmas para o Renato! Um jovem, um exemplo, um campeão. Ele me arrumou um alojamento no estádio Rei Pelé, onde dormi três noites e aproveitei para conhecer um pouco da tranquila cidade.
Preparei-me pra voltar à ativa depois de duas semanas sem pedalar e enfraquecido devido à dengue. Sai de Maceió rumo à Aracaju e tive o pneu furado logo na saída da cidade. Aproveitei e troquei já que estava mesmo precisando há muito tempo. De quebra, a mãe do dono da oficina me ofereceu um delicioso almoço. Nada mal. Continuei pela estrada passando pelas praias do Francês, Barra de São Miguel e dai encarei uma estrada toda cheia de subidas e descidas que seguia paralela à praia da Lagoa Azeda. Que sufoco aquela estrada. Vinte e dois quilômetros com chuva e um sobe e desce sem fim.
A estrada terminou em Jequiá da Praia e já era hora de procurar um lugar pra dormir. Achei uma simpática e arrumada pousada chamada Thiêta do Agreste. Quanta chiqueza! R$10 por uma noite tranquila. Na manhã seguinte comi um cuscuz na esquina e montei na bicicleta. Passei por Coruripe e Feliz Deserto até chegar em Piaçabuçu numa pedalada muito prazerosa, apesar das dores que estava sentindo devido à falta de ritmo. A cidade já era na beira do Rio São Franscisco, divisa entre os estados de Alagoas e Sergipe. Dormi por ali para no dia seguinte logo cedo sair em direção à Penedo, pitoresca cidade que preserva muitas construções coloniais e simpáticas igrejas. Lá utilizei uma balsa pra cruzar o rio da integração brasileira, um lindo símbolo, ícone histórico de um povo trabalhador.
Já estava em Sergipe, penúltimo estado da Expedição Redescobrir. Depois de encarar a segunda maior subida do Brasil ganhei uma linda pedalada pelo platô de Neópolis. Linda paisagem numa estrada cercada dos dois lados por cana-de-açúcar. A produção de álcool na região é muito importante e as usinas são grande fonte de emprego. Segui passando por Japoatã até chegar na BR-101, pela primeira vez na viagem pedalava pela estrada que liga o nordeste e o sul do Brasil percorrendo quase todo o litoral. Péssimo. Isso representou um fluxo intenso de caminhões que aumentava o risco de pedalar, já que muitas vezes o acostamento não possibilitava um pedal tranquilo.
No dia seguinte de tarde já estava em Aracaju, a nona capital que conheci na jornada. A recepção não deixou nada a dever às outras que tive na viagem e mais uma vez fui surpreendido pela solidariedade humana.
Agora já tenho a sensação de que a viagem vai se encerrando, deixando dois sentimentos distintos. Primeiro a satisfação do dever cumprido, de que meus sonhos se concretizaram de uma forma poética e consistente. Por outro lado, percebo que vou sentir falta destes dias em que estive desfrutando da verdadeira, e viciante, liberdade.
Salvador me aguarda.
Pernambuco embaixo dos pés

Caruaru fica numa região bem montanhosa do sertão pernambucano. A pedalada até Recife seria de dois dias e 134 km. Sair pedalando com a bike reformada foi ótimo! Agora podia render melhor e aproveitar os embalos das descidas com as marchas mais pesadas funcionando. Sai num sábado e cheguei no fim do dia na cidade de Gravatá, charmosa cidade famosa pelo friozinho de inverno.
Dormi em Gravatá ao som do São João que era festejado em frente à pousada onde fiquei. Barulheira. Levantei cedo, comi um açai e voltei pro pedal. Logo recebi de presente a descida da Serra das Russas. Nove quilômetros de puro prazer. O vento batendo forte e uma garoa gelada batendo na cara.
Pra chegar em Recife naquele dia tive que pedalar bastante pra estar lá no fim da tarde. Fui recebido por um amigo que fiz no Hospitality Club, site de hospedagens pelo mundo, e fui muito bem recebido em sua casa. Quando uma família, como a de Tony, abre as portas de suas casas para me hospedar me enche de satisfação e realmente fico sem saber como retribuir tal gesto. A solidariedade que venho encontrando no caminho te me enchido de esperança de que ainda existe forte o sentimento de que afinal somos todos irmãos.
Recife é uma cidade encantadora. Há algo de único em suas formas e no astral que preenche suas ruas e pontes. Possui também uma cena artística bem marcante, preenchida da forte cultura pernambucana que se destaca com sua riqueza e exuberância. Pernambuco é um estado bem distinto. Passei 10 dias na cidade conhecendo e conhecendo.
Tinha que mover-me e voltar ao pedal. Próxima parada: Porto de Galinhas. Sai da cidade com o tempo bem fechado. Passei pela orla de Boa Viagem e segui na direção sul. Passando pela Ponte dos Carvalhos ouvi um estalo e a roda da minha bicicleta travou. Nunca tinha visto nada igual. O câmbio traseiro simplesmente deu um nó. O mesmo câmbio que o cara de Caruaru tinha acabado de me dar. A primeira coisa que pensei foi em voltar pra Recife pra fazer o reparo. Já tinha andado mais de 20 kms. Liguei para o Tony e ouvi o que precisava. "Vá em frente, não volte." Por acaso passaram uns caras por mim e indicaram uma oficina logo ali perto. Substitui meu câmbio traseiro por um de R$5,00!!! Nem sabia que existiam câmbios de R$5,00. Segui em frente por rodovias muito lindas com muitas plantações, principalmente de cana. Cheguei em Porto de Galinhas ainda antes das 4 da tarde. Porto é um grande centro turístico. Famosa pelas piscinas naturais que se formam na maré baixa a alguns metros da praia. Eu previa ficar uns 3 ou 4 dias pra explorar bem a região. Mas eu não podia imaginar o que me esperava... No segundo dia acordei me sentindo muito mal. O corpo doendo, mal-estar, dor de cabeça e princípio de febre. Fiquei o dia inteiro de repouso. No dia seguinte acordei um pouco melhor mas no fim do dia já estava mal de novo. Não me sentia com gripe porque não tossia nem espirrava, minha garganta também estava normal. No terceiro dia procurei o posto de saúde e comecei a tomar medicamentos. Eu já sabia o que era: dengue. Dor pelo corpo, febre alta, irritação na pele, falta de apetite... O dia inteiro na cama vendo TV, por quase duas semanas, esse é o relato de Porto de Galinhas. Assistindo um episódio das novelas saquei toda a trama e virei um noveleiro. Ah, também tinha a Copa pra me distrair. Tive muita sorte de conhecer pessoas que me ajudaram e diminuiram bastante o sofrimento da situação. O cronograma atrasou bastante e eu perdi o condicionamento que tinha adquirido nas pedaladas. Perdi quilos importantes e estava fraco. Tem horas que estou bem e a bike ruim, outros a bike ruim e eu bom... agora que a bike estava boa eu tinha que superar o declínio e voltar à boa forma. Ainda não estava pronto para pedalar então optei por sair dali de ônibus mesmo e ir até Maceió. Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antonio Conselheiro! Todos os Panteras Negras! Lampião, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também pedalaram um dia! |
7.17.2006
Viva São João!!!

Cheguei em Campina Grande e fui logo procurar uma hospedagem daquelas perfeitas: boa e barata. Consegui achar uma que era só barata. O menor quarto que eu fiquei em toda a viagem. Eu sequer cabia esticado na cama e no quarto quase não cabiam todas as minhas tralhas. Mas tudo bem, afinal eu estava ali para conhecer o famoso São João do nordeste.
A cidade é bem organizada e tornou-se minha principal referência do estado da Paraíba, já que para estar ali evitei a capital João Pessoa. O clima de São João toma conta de toda a região e a briga maior é entre as cidades de Campina, como é popularmente chamada, e Caruaru para ver qual é o maior São João do mundo. Fui conferir e tirar minhas próprias conclusões.
O local onde acontece a festa é um enorme centro de eventos. Muita gente, muitas barracas de comida e, é claro, muito, muito, muito forró! Eita coisa boa! Existe um palco grande onde acontecem os grandes shows. A pedida da vez foi o fenômeno Aviões do Forró, que para mim, quando comecei a viagem, era totalmente desconhecido, já naquela altura da viagem, depois de quase 5 meses viajando pelos interiores, percebi que conhecia todas as músicas e podia cantá-las tranquilamente. "Você não vale nada mas eu gosto de você" ou "De bar em bar, de mesa em mesa, bebendo cachaça, tomando cerveja." Grandes sucessos aprendidos por osmose. A trilha sonora de uma viagem pelo nordeste.
O plano era conhecer o São João de Campina Grande na sexta e no sábado e partir para Caruaru na segunda feira, ficar por ali dois ou três dias e seguir para Recife. Pedalando de Campina Grande em direção à divisa com o estado de Pernambuco percebi que a situação da bike não era nada boa. O desgaste já havia comprometido as peças da relação, ou seja, coroa, câmbio, corrente e catraca. Já não podia colocar as marchas mais pesadas e só podia contar com 10 das 21 marchas. Somou-se a isso o fato do terreno ser montanhoso, isto é, quando o jogo de marchas se faz mais necessário para um bom desempenho.
No segundo dia de pedalada, há alguns kms de Caruaru, o câmbio estorou de vez. Preocupou-me muito o fato de ter que trocar as peças, pelo custo que isso acarretaria como também pela qualidade das peças que seriam colocadas no lugar. Peguei uma carona e cheguei na cidade, indo procurar diretamente uma loja de peças. Caruaru é uma eterna concentração comercial. Existe uma feira que acontece às terças e quintas e que é uma loucura. Há uma feira ótima de artesanato e de frutas e legumes. A loja recomendada fica à beira do rio Ipojuca, de frente pra grande feira. Procurei o dono da loja e expliquei a situação. Ele, muito prestativo, me garantiu a reposição das peças. 0800. Pediu que eu levasse a bike no mecânico para ele avaliar o estado da bike.
O mecânico deu uma olhadinha de 3 segundos e falou: "Tem que trocar tudo." Nada mais. Pensei: "Putz, o cara não vai me dar todas as peças novas... tô ferrado." Voltei na loja e falei para ele que precisava trocar toda a relação. Como era dia de feira, ele não pode me atender durante todo o dia. Já pensava a grana que teria que gastar. No fim da tarde, quando as coisas se acalmaram, ele me presentou com todas as peças novas! Não pude acreditar. Levei no mecânico e ele deixou minha bike nova, ainda aproveitei e troquei mais umas peças importantes, como o movimento central e o cubo traseiro, colocando peças de rolamento, o que proporcionou um desempenho bem melhor nas pedaladas.
Só me restava aproveitar o lindo São João de Caruaru, mais charmoso e melhor organizado que o de Campina Grande. A estadia de dois dias na cidade transformou-se em cinco, sendo cada noite muito bem desfrutada ao som do melhor forró pé-de-serra. De quebra, um lindo show de Alceu Valença me fez olhar para o céu e agradecer por estar ali no inesquecível sertão nordestino.
"Caruaru, nunca me esqueço de Caruaru. Se tô no norte, se tô no sul, nunca me esqueço de Caruaru." Já cantava o grande Gonzagão.... e como ele tinha razão!!!
6.22.2006
Aonde o vento faz a curva... RN!
Parece que agora a viagem começou pra valer. Pelo simples fato de estar só, as coisas funcionam de uma maneira completamente diferente. Mais aberto às pessoas, mais livre para poder fazer as decisões e viajar simplesmente no meu próprio tempo, além de poder ouvir melhor minha voz interior.Logo que sai de Canoa Quebrada, vi que a estrada que ia até Mossoró era esburacada e praticamente sem acostamento. Além disso, precisava ganhar um tempo no meu cronograma e resolvi logo pegar uma carona. Em não mais que quinze minutos consegui uma no posto da Polícia Rodoviária. Assim que entrei na cabine, o rádio tocava uma canção que falava assim: "Tudo vai dar certo. Tudo vai dar certo." E nada mais.
Me enchi de entusiasmo e de certezas. Embora as coisas não estivessem muita certas, sabia que era uma fase e que logo tudo se transformaria. Tudo vai dar certo. Esse pensamento é capaz de milagres. Em Mossoró estendi pela mesma rodovia até Natal. Por todos os percalços que estava passsando, perdi um pouco o entusiamo pra pedalar, me sentia pesado e angustiado. A escolha foi muito boa. Natal representou uma renovação no meu astral, pelas pessoas que conheci, pelo lugar que fiquei e pela vontade que eu sentia de mudar a situação.
Natal é uma cidade muito bonita. Me pareceu organizada e o povo receptivo, embora tenha ficado por lá cinco noites. Tempo de reconstruir-me e juntar forças para seguir viagem. Fiquei hospedado no Albergue da Costa, na Ponta Negra, creio que o melhor lugar pra ficar em Natal, bem localizado e tranquilo. A praia é pertinho (mas eu já estava enjoado de praia) e tem um belo visual do Morro do Careca, cartão postal da cidade.
Há várias opções nos arredores de Natal: Genipabu, Maracajaú, Cabo de São Roque, entre outras opções ao norte. Pelo fato da viagem ter se prolongado muito, neste instante foi necessário cortar o litoral norte do estado. A região de Touros, São Miguel do Gostoso e Caiçara do Norte ficará para uma próxima, pois tenho certeza que é uma região muito linda. Mas desta vez, sei que não poderei ver tudo.
As baterias estavam recarregadas. Mudei muita coisa nos meus planos e, principalmente, minha atitude interior. Percebi que tinha que ser otimista. Comecei a pedalada em direção à Pipa. Logo que sai do albergue, o céu fechou sobre mim. Peguei muito vento contra e uma garoa gelada. A primeira idéia que veio à mente foi: "Humm, acho que escolhi um mal dia pra sair. Vou voltar e ver se melhora esse tempo." Mas logo em seguida, a outra voz (não, não sou esquizofrênico) logo falou mais alto: "Opa, péra ai, depois da tempestade logo vem a calmaria. Vamos ver o que vai dar." Segui em frente. Não estava fácil seguir. Tinha que ir devagar. Cheguei na primeira cidade na saída de Natal e esperei uns minutinhos até a chuva ficar mais fraca. Quinze minutos depois, a chuva diminuiu. Subi na bike e voltei à pedalada.
A distância que separa Natal de Pipa é formada por maravilhosas praias, de todos os tipos. Cotovelo, Tabatinga, Búzios, Pirangi, Madeiro, entre outras e não necessariamente nesta mesma ordem. Algumas com falésias lindas, outras com barreiras de pedras que formam piscinas, umas com boas ondas, algumas boas pra pesca. Em Pirangi ocorre um fenômeno peculiar. Lá está o maior cajueiro do mundo, algo realmente fora do comum. Ele tem mais de 8.000 m2. É um absurdo, decorrência de uma mutação genética. Seus frutos alimentam toda a população da cidade por um bom tempo. Fenomenal.
ara chegar em Tibaú do Sul tive que percorrer um trecho pela areia. Neste instante o céu já havia abrido e o astro-rei aquecia já meu corpo. Depois de uma balsa já estava a 5km de Pipa. Chegar em Pipa foi incrível. Foi uma provação aquele dia. Um percurso muito gostoso de ser percorrido e com algumas dificuldades, como uma subida pra chegar em Tabatinga e um trecho que tive que empurrar a bike na areia.
Mais uma chance de fortalecer minha fé. Fé em seguir em frente e fé de que acima de tudo eu estava no lugar certo. Pipa é um encanto. Pude desfrutá-la por quase uma semana. Aproveitei para praticar yôga, o que não fazia há um bom tempo, e remanejar meu percurso. Conheci dois biológos que estudam as tartarugas e os golfinhos que existem na região. Eles são heróis que lutam pela preservação de um tesouro e que correm sérios riscos. A especulação imobiliária e as novas construções estão destruindo vários refúgios naturais ao longo da costa brasileira. Há muito investimento, principalmente externo, e muitas vezes as novas obras não respeitam regras e leis que tem como princípio a preservação. Compra-se tudo.
Lá de Pipa, senti o burburinho do São João que estava começando e, olhando os mapas, decidi encarar um pouco do sertão e ir mais fundo neste redescobrimento do imaginário nordestino. Segui, subindo a serra, para o Parque Estadual da Pedra da Boca, que fica exatamente na divisa entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, no Planalto da Borborema. Foi um ótimo dia de pedal. Já me senti leve e disposto.
Esplêndidas formações de granito constrõem um cenário deslumbrante. Prato cheio para os escaladores e montanhistas de plantão. Ótima escolha. Há um refúgio logo embaixo da Pedra da Boca. É a casa do seu Tico, o grande guardião do lugar. Conhecedor do ambiente e guia experiente, sem tempo ruim, conversar com ele é uma aula sobre a região. Subi a pedra e, lá em cima, encontrei a paz que preciso para seguir essa jornada.
Viajar pelo nordeste é como uma prova de múltipla escolha, só que todas as opções, aqui, são corretas.
6.17.2006
O vale das sombras

Deixar Jeri não representou somente a continuação da jornada. Mas sim o início de um ciclo que representou importantes transformações na viagem e, é claro, em mim. Viajar, assim é viagem.
No primeiro dia que deixamos Jeri pedalamos até Jijoca, município que agrega Jericoacoara e serve de base para a localidade. Conhecemos o Luis, que nos recebeu em sua casa que fica junto à maravilhosa Lagoa Paraíso. Depois de longas conversas, comidas e uma fogueira chegou a hora de dormir. Já ali, deitado na rede, percebi algo estranho em mim.
Foi a pior noite que havia tido na viagem. Tive sonhos ruins e sentia que meu corpo não estava legal. Acordei não tão bem e logo arrumamos as coisas para partir. Senti pela primeira vez uma falta de vontade para pedalar. Estava sem ânimo. Fraco fisicamente e creio que mais ainda emocionalmente. Pedalamos todo o dia 36km até Cruz e lá comemos e descansamos para o outro dia.
Pensei que uma boa noite de sono me recarregaria as energias, mas no dia seguinte, quando pedalamos 41km até Almofala, ainda não me sentia bem. Já em Itarema, alguns kms antes, já tinha resolvido seguir andando, mais devagar e pensativo.
Passamos a noite numa instalação na beira da praia e na manhã seguinte voltamos a pedalar pela areia. Passamos por um trecho dificilissímo de Patos pra Barra de Moitas. A areia se transformou num manguezal, com lama no joelho e mais de 20 kg em cada bike sofremos muito para conseguir chegar na beira de um rio. Atravessamos com a ajuda de uma canoa e conhecemos umas pessoas que estavam num bar. Estava muito quente, eu tocia muito e sentia meu corpo fraco. A maré já estava enchendo, resolvemos ficar aquela tarde por lá, descansar um pouco e rever os planos. Comemos e eu fiquei um bom tempo deitado numa rede.
Analisando a situação vimos que a melhor opção era esperar a maré baixar, umas 6 da tarde, e aproveitar a lua cheia para seguir de noite, sem o calor. Voltamos a pedalar 5 e meia por uma estrada de terra que tinha até Icarai, aonde retornamos para a praia e pedalamos umas três horas de noite. Mantivemos um ritmo bom. Pedalar pela areia é tranquilo, o problema são os acidentes geográficos que ocorrem, como pedras, rios, etc. Em Caetanos senti que já estava suficiente para aquele dia e fomos procurar um lugar para dormir. Encontramos um lugar para colocar nossas redes na Companhia de Pescadores.
Logo cedo, sob um sol quente, voltamos a pedalar. Embora eu estivesse desanimado, mantinha a convicção de que não podia ceder àquela circunstãncia. Logo tudo passaria, só não sabia quando. Atravessamos as praias de Sabiaguaba, Apiques, Inferno, Baleia, Mundaú e Fleixeiras até chegar em Guajiru. Todas muito bonitas, principalmente a Baleia, e extensas. Ótimos visuais e um pouco de ânimo. Só pensava em chegar logo em Fortaleza.
Na manhã seguinte saímos em direção à Lagoinha. Foi uma pedalada tranquila, somente nos últimos 5 kms pegamos um fortíssimo vento contra que fez com que levássemos muito tempo pra chegar. Outra linda praia que vale a pena. Nós não ficamos muito ali. Do jeito que estava o vento, não conseguiríamos seguir pela praia. Do jeito que estava minha saúde e meu ânimo, não tinha tanta vontade de pegar a estrada até Fortaleza. Pegamos uma carona num ônibus e chegamos naquele mesmo dia na capital cearense.
Cidade grande. O ser humano e suas cidades. Buzina, fumaça. Fumaça e buzina. Asfalto, grana, relógio. Todos querem muito, menos saber quem são. A maré que dita o tempo é a da bolsa de valores, a cotação do dólar. Você já fez o seu pedido senhor? Coloque tudo numa sacola de plástico.
Alguns dias em Fortaleza. Meu ânimo não melhorava. Minha saúde parecia estar pior. Buscava forças dentro de mim. Buscava encontrar eu mesmo a solução. Mas o que senti era vontade de sair logo dali. Fizemos uma entrevista com o jornal local e revisamos nossas bikes. Eu passava meu tempo indo numa livraria para ficar horas olhando um atlas maravilhoso. Construindo rotas, sonhando com estradas e lugares distantes. Mentalizando pedaladas.
Num certo domingo, pela primeira vez eu e o Rodrigo nos separamos. Combinamos de nos encontrar mais à frente. Saindo de Fortaleza, segui até Aquiraz passando pelo Porto das Dunas e mais umas belas praias. Ainda não estava animado. Cruzei Prainha, Presídio, Iguape e finalmente achei um lugar maravilhoso para acampar em Barro Preto. Armei minha barraca num gramado perto do mar. Não coloquei o sobre-teto para poder ficar apreciando as muitas estrelas que brilhavam aquela noite.
Foi uma noite muito especial. Sozinho, ali bem perto da natureza, sem barulho, sem nínguem, só eu, o mar e as estrelas, tive uma forte sensação de que logo as coisas estariam melhor. Que, assim como as fases boas não duram pra sempre, assim também é com as fases ruins. Contemplei e agradeci por estar ali, tão perto do sublime.
Acordei com o sol e um pouco mais animado para seguir, porém nem tanto. Decidi pegar a estrada direto para Canoa Quebrada e não parar em Morro Branco. Cheguei em Canoa dois dias antes do Rodrigo e aproveitei um pouco do sossego do lugar.
Apesar de ser muito bela, Canoa Quebrada também passa por um processo de super urbanização. Existe até um loteamento que mede quase o tamanho da vila que já existe. Há pousadas em excesso, bares em excesso e turistas em excesso. É bom corrermos para conhecer tudo antes que nada mais sobreviva intacto.
Ali mesmo em Canoa Quebrada, eu e o Rodrigo resolvemos seguir separados. Existiram muitos motivos para essa decisão e cada um de nós temos nossas razões. Passamos 120 dias viajando e nossa convivência era praticamente de 24 horas. Dormimos até na mesma cama em Belém. O desgaste foi inevitável.
6.16.2006
O relicário cearense.

Alguns acreditam que o Paraíso poderia facilmente ser uma praia. Se isto for verdade, não resta dúvida de que esta praia poderia ser no Ceará. O problema, em consequência, seria escolher qual delas. Eu faço minha aposta.
Entramos no Ceará pela cidade de Chaval, um pouco afastada do litoral e de lá percorremos 56km pela rodovia até a simpática cidade de Camocim. Passamos a noite por ali e logo de manhã fizemos uma travessia de barco para chegar à Ilha do Amor, primeira praia que precisaríamos percorrer para alcançar nosso objetivo do dia: Jericoacoara! De início tivemos que empurrrar as bikes embaixo do sol forte por um trecho de dunas, até chegar junto ao mar. Dali teríamos uma longa faixa de areia a percorrer e também uns rios pra atravessar.
Passamos pelas praias de Imburanas, Moréia e Tatajuba até chegar a Guriú, onde de balsa atravessamos um braço de rio. Lindas praias, onde a paisagem inspirava os pensamentos e o movimento das pedaladas deixava todo o corpo completamente ligado. Muitos coqueiros e quase nenhuma pessoa, a não ser os pescadores e alguns bugues que levavam turistas para fazer passeios. Em Tatajuba, a mais linda praia do caminho, há um braço de rio que por sorte conseguimos atravessar na canoa de um pescador, já que ali não tinha balsa. Um lugar que me fez pensar em passar uns dias... ou semanas, meses, anos...
De Guriú faltava muito pouco pra chegar em Jericoacoara, uns 12 kms. Mas quando saímos da balsa vimos que a maré já tinha subido, o que não deixava a faixa de areia que precisávamos para pedalar. Demos uma descansada e tomamos a única atitude que nos restava: empurrar as bicicletas. Ir empurrando é o que mais nos cansava quando íamos pela areia, as bikes pesadas na areia fofa é realmente muito desgastante e, além disso, chato. Tinhamos que percorrer 12 kms, iria tomar muito tempo. Mas não tínhamos outra opção.
Quando faltavam uns 5km pra chegar em Jericoacoara, já foi possível pedalar de novo, após umas duas horas ou mais de sofrimento. De longe foi possível enxergar a duna que a caracteriza, mas parecia que nunca ia chegar. O prêmio do dia foi o lindo pôr-do-sol que avistamos da praia e absorvemos o astral do lugar logo na chegada. Jericoacoara é o auge.
Jeri, como é comumente chamada, foi transformada em Parque Nacional, o que possibilitou algumas atitudes de preservação e manejo consciente. Mas é claro que nem tudo por lá é muito sério. Estamos no Brasil. Por ser um local completamente isolado, Jeri sofre por não ter banco, ter má conexão telefônica e saneamento precário. Os moradores fazem muitas reclamações e o prefeito (um espanhol!?!?) está bastante ocupado com seus negócios. Os imóveis por ali estão super valorizados já que a expansão das construções está proibida. Uma das praias mais bonitas do mundo precisa ser cuidada como tal.
O pôr-do-sol de lá é inesquecível. Jeri foi presenteada pela natureza com o sol se pondo no mar, algo muito raro no Brasil pela nossa posição geográfica, já que o que normalmente ocorre é o sol nascer no mar. E mais, tem até arquibancada! Uma duna que se levanta junto à água e que possibilita que o público tenha uma ótima posição para apreciar sua insignificância.
A capoeira dá o ritmo do lugar, que ainda tem grandes lagoas que podem ser apreciadas em passeios por dunas gigantes e, pelo outro lado, uma formação peculiar lapidada ao longo dos anos pelo mar, que resiste em querer subir pela areia: a Pedra Furada.
O que comumente se diz sobre Jeri é que você provavelmente vai ficar por lá mais tempo do que havia planejado.
6.15.2006
Alfa, beta, gama... Delta!

Um rio pode desembocar no oceano em forma de estuário, isto é, da mesma maneira que o leito segue todo seu curso suas águas unem-se ao mar, todo de uma vez. Ou então em forma de delta, formação não muito comum, quando o rio divide-se antes de desaguar no mar formando caminhos diferentes e , em consequência disso, muitas ilhas.
Temos, no Brasil, o Amazonas com sua foz em estuário e o Parnaíba que forma um majestoso delta antes de tornar-se Oceano Atlântico. Popularmente conhecido como Delta das Américas, por ser o maior do gênero em mar aberto do continente.
Chegando em Tutóia, precisávamos tomar um barco para chegar à cidade de Parnaíba. Após a construção de uma rodovia que interliga as duas cidades este trajeto feito por terra se popularizou, culminando na escassez de barcos em circulação. Hoje existe somente um, o Cidade de Tutóia, que segue de Parnaíba para Tutóia às segundas, quintas e sábados e faz o trajeto inverso às terças, sextas e domingos.
Ao chegarmos em Tutóia, pretendíamos tomar o barco logo no dia seguinte. Levantamos, arrumamos nossas coisas e fomos até o cais. Para nossa surpresa, aquele dia não haveria barco, já que ele não havia vindo de Parnaíba no dia anterior, em virtude do feriado que era celebrado aquele dia. Só nos restava esperar três dias para que pudéssemos fazer a travessia, que foram desfrutados na pacata cidade sem internet de Tutóia, no aconchego da Pousada Jagatá, onde o proprietário, Marcos, nos deixou passar esses dias.
Finalmente embarcamos logo cedo numa sexta-feira ensolarada. Nos acompanharam uma família mineira, um argentino, um casal italiano, um carneiro e poucos moradores da região. A viagem de 8 horas passa por muitos canais que formam o delta. Dos dois lados pode-se apreciar os muitos manguezais com uma vegetação bem densa. Aqui e acolá surgiam praias muito bonitas de areias bem claras.
O lugar mais procurado da região é a Ilha do Caju, com praias em mar aberto. Outro atrativo é a observação de aves, seja em bandos ou solitárias, sempre despertavam a curiosidade dos olhares mais atentos. Vez ou outra o barco parava em alguma vila para troca de passageiros e de mercadorias. Uma das principais fontes de renda da região é a coleta e venda de caranguejos, que são comprados ali por atravessadores que os vendem bem mais caro aos frigoríficos e restaurantes das cidades grandes. Claro que quem ganha menos nessa história é o catador. É a lógica de mercado atual.
O dia deu lugar à noite e já estávamos próximos de Parnaíba. Descemos no Porto das Barcas, charmoso ponto de encontro da cidade, e fomos procurar por uma pousada. Após algumas horas de procura e conversas com recepcionistas, fizemos amizade com uma delas, Clayce, que nos ofereceu a sala de sua casa para armarmos as redes. Mais uma economia em tempos de contenção de gastos e mais uma bela amizade!
Um dos roteiros mais interessantes do Brasil sem dúvida é a travessia que se faz dos Lençóis Maranhenses à Jericoacoara, ou vice-versa, passando pelo Delta do Parnaíba. Encontram-se muitas belezas naturais neste caminho. Imagens e sensações únicas em cenários perfeitos.
Embora bem curto o litoral do Piauí guarda praias lindíssimas, como Macapá, Cajueiro da Praia e a famosa Pedra do Sal. Daí entramos no Ceará, um rico estado, o sexto da Expedição Redescobrir.
A imensidão de um lugar Lençóis.

Muita emoção e paisagens únicas na travessia que fizemos dos Lençóis Maranhenses. Saindo de São Luis por São José de Ribamar passamos por vilarejos onde a luz acabou de chegar e, de bicicleta, cruzamos todo este parque nacional.
A saída de São Luis foi de barco, pelo município de onde pode-se ir para uma infinidade de ilhas e vilarejos distantes. Nosso destino era Areinha, comunidade centrada numa porção descomunal de areia (ah é?) onde precisávamos tomar uma carona de jipe até Travosa, já que pedalar por ali era tarefa impossível: muita areia e diversos trechos alagados.
Travosa é uma lenda. Cabe aos bem-aventurados e persistentes revelarem os segredos deste lugar pitoresco e descobrir a excentricidade das pessoas que lá moram. Não mais que um punhado de casas compõe o cenário, além das centenas de coqueiros e, claro, muita areia. Esta vila de pescadores sobrevive longe da civilização e quase inacessível. Porém, pertinho do mar, motivo de sua existência. Escolhemos uma dessas casas para pedir abrigo, a de Dona Maria de Jesus que, muita disposta, ofereceu seus ganchos de rede e abriu as portas de sua casa. Seu filho Ribamar, um pescador hábil, logo se mostrou um guia e amigo, nos indicou os caminhos do lugar e foi responsável por uma história que contarei já já.
Do farol que existe em Travosa é possível avistar a Lagoa de Santo Amaro, a maior dos Lençóis. E de lá pudemos vislumbrar a grandeza deste acidente geográfico, que é do tamanho da cidade de São Paulo, ou seja, uma metrópole de areia.
Numa certa manhã fomos à praia e para isso é necessário andar por uma hora pelas dunas, atravessando as lagoas. Fomos com Ribamar, que nos levou para ver uma palhoça de pescadores na praia e aproveitou para jogar bola com seus amigos. Depois de um tempo, resolvemos voltar sozinhos e encaramos as dunas de volta. Tudo parecia exatamente igual, isto é, não tínhamos noção do caminho a seguir para chegar à vila, já que perdemos a rota das pegadas da ida. Quando acabou a areia entramos num manguezal mas não conseguíamos encontrar uma passagem. Contornamos o mangue e acabamos achando um rio. Sabíamos que não tínhamos atravessado aquele rio na ida mas aproveitamos para relaxar nas suas águas fresquinhas. Não mais que cinco minutos depois, nosso amigo Ribamar conseguiu nos achar! Não só isso, ele sabia exatamente onde tínhamos passado. Ele conhece as pegadas de cada um dos pescadores dali e sabia reconhecer quais eram as nossas.
Isso mostrou uma relação muito simples e integrada com o ambiente em que ele vive. Um pouco desta relação que temos aprendido. Respeitar os fenômenos naturais e lidar da melhor forma com eles. Para sair de Travosa e ir até Atins tínhamos que percorrer 60 km pela praia. Tivemos que calcular qual o melhor horário do dia para que pegássemos o intervalo entre as duas marés cheias do dia, ou seja, a maré que fosse mais baixa e que deixasse uma faixa mais larga de areia para pedalarmos. No dia que havíamos planejado sair não púdemos pela forte chuva que caiu no dia, nos forçando a rever a tábua de marés e aceitar as condições naturais.
Partimos às 5 e meia da manhã e tivemos que primeiro fazer a travessia de uma hora das dunas para chegar na praia. Pedalamos 30 km curtindo um visual surreal, de um lado o mar, do outro os Lençóis, alguns pescadores apareciam, mas a sensação sempre era de isolamento. Já esperávamos o grande desafio do dia: o Rio Negro. Sabíamos que a maré estava baixando, mas não sabíamos por quanto tempo. O nível da água estava alto e tínhamos que passar as bicicletas e nossas bagagens. Tentamos em alguns pontos mas sequer alcançavamos o fundo do rio. Procuramos mais e achamos um trecho onde a água batia no pescoço. Tinha que ser naquela hora, a maré começava a subir. Amarramos cordas um no outro e nas bikes no caso de perdermos para a correnteza. Íamos com os braços bem levantados e os pés tateando o fundo de areia. Depois de quatro viagens conseguimos levar tudo para o outro lado, mas o sufoco não tinha terminado. Faltavam 30 km, a maré tinha subido e o sol estava de rachar.
Encostamos debaixo da única sombra do caminho para descansar e comer. Nosso problema agora era a maré. Não havia mais espaço na praia para pedalar. Tínhamos que esperar a próxima maré baixa, a da noite, para seguir. Perto das 17:30 conseguimos de novo pedalar e aceleramos para aproveitar a luz que se findava. O sol se pôs quando atravessamos outro rio, este mais raso. Agora, no escuro, tínhamos que chegar até Atins. Mas sabíamos que não precisávamos nos preocupar porque a fase da lua era cheia, o que rendeu uma ótima pedalada noturna de lua cheia à beira-mar.
Lá pelas tantas, depois de umas duas ou três horas, conseguimos avistar uma luz. A luz foi ficando mais próxima e fomos ver o que era. Para nossa surpresa e felicidade geral da nação brasileira tratava-se de uma pousada! Ali, no meio do nada! Não só isso. Por R$5 comemos um PF digno de caminhoneiro. De banho tomado e barriga cheia dormimos muito bem em nossas redes, ali, naquele paraíso feito de areia e água.
Para aumentar a magia desta travessia, conhecemos nesta pousada dois ciclistas de Barreirinhas que estavam dando uma volta pelos Lençóis e nos convidaram para ir com eles pelo meio das dunas, passando pelas lagoas e chegando direto ao nosso destino, Atins.
Insano! As dunas serviram de pista para nossas bikes. Nas subidas sofríamos um pouco, mas todo esforço era recompensado nas descidas... pura adrenalina!
No final chegamos na Lagoa Azul e fomos presenteados pela natureza com um banho em suas águas cristalinas.
Dias que deixarão saudade.
O encontro com o mar e com Jesus no Maranhão

É a terra de Sarney. E também de Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzzi, Arthur de Azevedo e Henrique Beckmann. E de Zeca Baleiro, Humberto do Maracanã e da Tribo de Jah. A terra do reggae, do bumba-meu-boi e do tambor de crioula. Do cuxá, do doce de espécie e do arroz de Maria Izabel. Vou lhes contar a história de nosso encontro com o mar e com Jesus. Claro que estou falando do Maranhão.
Impressionante como a distância que separa Belém de São Luis guarda tantas discrepâncias e marca a fronteira não só entre o norte e o nordeste, mas separa um ecossistema de floresta para um que vai se transformando pouco a pouco. Primeiro os alagados de bufálos vão dando lugar às criações de mulas, quase sempre soltas. As árvores imensas com copas grandes são substituídas por palmeiras e coqueiros e a população não mais é influenciada pela cultura do índio e do caboclo, mas sim do caiçara e do negro. Daquele escravo que construiu as casas, que pavimentou as ruas e desenvolveu a capoeira e cantou sua tristeza. O rio cedeu seu trono ao mar, que tranquilo marca o ritmo da cidade com sua maré oscilante. E nós fomos presenteados com essa imensidão e com as bençãos de Iemanjá.
Pedalamos 80km entre Pinheiro e Cujupe, já no Maranhão e chegamos à capital pela balsa que atraca num porto distante. Nos instalamos no pitoresco centro histórico da cidade, onde estão preservados casarões de uma época em que o Brasil sequer era uma democracia, revitalizados pelo Projeto Reviver, que hoje dá nome ao lugar e onde acontece o forte movimento noturno. Para nossa surpresa, recebemos um convite do Comandante Geral da Polícia Militar do Estado do Maranhão para nos alojarmos no quartel, onde passamos todo o tempo de nossa estada na cidade.
O centro é marcado por ruas e becos, ladeiras e esquinas que sobrevivem ao tempo e são as maiores testemunhas da história da cidade. Nascida francesa, transformou-se em holandesa e portuguesa e é fruto dessa mistura que dá vida e um colorido especial às suas tradições. É lá que acontece o tambor de crioula, dança maranhense tocada por homens e dançada somente pelas mulheres, muito animada e marcada pela tradicional fogueira que aquece e amacia a pele dos tambores. É no centro também onde podemos dançar o enraizado reggae que é a trilha sonora não só de São Luis mas de todo estado, trazendo a harmonia de suas melodias para o dia-a-dia.
A cidade é separada pela baía de São Marcos e a partir das duas pontes que a atravessam chega-se às praias, que começam na Ponta da Areia e vão até a Raposa, transformando-se nas praias de São Marcos, Calhau, Olho D´agua e Araçagi. É também onde estão os bairros mais populosos e mais adiante os municipios de Paço do Lumiar e São José do Ribamar, de onde saem barcos para uma imensidão de ilhas e vilarejos da costa.
Inevitável retratar como aconteceu, logo na primeira cidade maranhense, lugar ermo e sombrio, num posto numa rodovia qualquer, logo ali, o nosso inesquecível encontro com Jesus! Um encontro marcado pelo cansaço de uma viagem longa e pelo ânimo novo para seguir adiante. Pela satisfação de um verdadeiro sonho cor-de-rosa. Com uma fórmula secreta e cor atraente, Jesus é a inigualável bebida maranhense!
O que podemos dizer é que o Maranhão é uma grande redescoberta!
Avante!
Pará: Açai e tacacá. Paidégua esse carimbó!

Foram 15 dias redescobrindo os encantos do Pará, que revelou sua excêntrica culinária, suas riquezas naturais sem fim e sua gente, cativando-nos com sua simplicidade, bom humor e com uma recepção extraordinariamente calorosa. As lembranças da terceira capital da Expedição Redescobrir ficarão guardadas com carinho por muito tempo.
Logo que chegamos em Belém fomos buscar nossas bicicletas, que nos esperavam na casa de um amigo. A partir daí a viagem ganhou um novo sabor, visto que desta vez pudemos conhecer a cidade sobre duas rodas, proporcionando-nos um contato mais próximo e dinâmico com seu entorno. Sob as mangueiras que enfeitam a cidade, em cada esquina, descobríamos uma nova fruta, uma construção histórica ou algum paraense com alguma boa história pra contar.
Cupuaçu, pitomba, taberebá, pupunha, graviola, cacau, açaí, bacuri, muriti... São tantos os sabores experimentados que fica até difícil lembrar de todos os nomes das frutas. Tamanduá, onça, jacaré, gavião-real, preguiça, sucuri, camaleão, anta, ariranha, jibóia, peixe-boi, tucano, ararauna... Infelizmente alguns foram vistos em cativeiro, já que uma revoada de guarás ao ar livre é a manifestação da perfeição da natureza. O homem vai aumentando as cidades e expulsa os bichos, ou simplesmente os aniquila.
Refúgio natural que conserva atrações magníficas, destacando-se no cenário natural do estado do Pará, a Ilha de Marajó entrou no nosso roteiro. "Aqui quem manda não é o presidente da República, nem o Papa. Quem manda aqui é a água. É a chamada ditadura da água, com seus três tempos: seca, lama e cheia."- nos avisou o diretor do Museu do Marajó. Lá passamos o carnaval com um grupo de Belém, que realiza diversas atividades ligadas à bicicleta (http://www.eart.esp.br/), foram 315 km pelas trilhas, estradas de terra e rodovias da maior ilha fluviomaritima do mundo.
De Belém tomasse uma balsa até Camara, já em Marajó. De lá conhecemos Salvaterra, Soure e Cachoeira do Arari, alguns dos 16 municípios da ilha, sempre de bicicleta. Vivenciamos paisagens impares, que nunca esperávamos que pudessem existir em nosso país. Vegetações rasteiras com árvores baixas esparsas nos remetiam às savanas da África. Campos alagados repletos de búfalos e praias lindas de água doce também compunham o cenário. Muito sol, muita chuva e muita lama depois voltamos à balsa para retornar a Belém, realizados pelo inesperado presente.
Mais alguns dias na cidade e nos prepararamos para o início da fase cicloturística, que agora começaremos a trilhar. Também aproveitamos para saborear o açaí do Ver-o-peso, dançar o carimbó no Mormaço e tomar água de coco na feira de domingo da Praça da República. Muito paidegua esse povo!
http://www.museudomarajo.com.br/
Amazonas: O esplendor do rio-mar

Esplendor, a melhor palavra para descrever o sentimento que transmite o Amazonas, maior rio do mundo (pela quantidade de água, sem dúvida). Majestoso rio-mar! Às vezes nos confundia, pelo seu tamanho, não deixava saber se era rio ou se era mar. A viagem de Manaus a Belém, que levou quatro dias a bordo de um navio, foi impressionante.
Fomos surpreendidos no porto de Manaus pela recusa do dono de um barco em aceitar as passagens que haviamos comprados numa agência. Lá em Manaus, pode-se comprar as passagens no guichê do porto por R$236 ou atrás do mercado público com agências pelo melhor preço que conseguir. Com a habilidade que estamos desenvolvendo na arte da pechincha, conseguimos comprar cada passagem por R$125 e esse foi o motivo da atitude do dono do barco, já que ele queria no mínimo R$170. Com toda nossa bagagem já a bordo e com tempo escasso, fomos obrigados a trocar de embarcação.
Nos instalamos no Amazon Star, agora por R$150. Um navio gigantesco, um amontoado de ferro que nos deixou em dúvida se flutuava mesmo. Péssima comida. Deixamos Manaus e logo pudemos apreciar o famoso encontro das águas dos rios Negro e Solimões, um show singular. O navio seguiu rumo leste com a correnteza a favor, sem parar noite adentro.
O principal porto do caminho é Santarém, onde o navio atracou para subistituição da carga. Do convés saíram seis lanchas e entraram algumas peças gigantes de carne bovina, que virou a sopa da última noite. O navio voltou a ativa e já passou por outro encontro de águas, desta vez o Tapajós, com suas águas esverdeadas correu separado por longo tempo das águas barrentas do Amazonas.
O ponto alto da viagem foi a travessia do Estreito de Breves, próximo a Ilha de Marajó. Além do fato da floresta estar mais próxima, toda vez que o navio passava próximo de uma comunidade ribeirinha, surgiam diversas canoas conduzidas geralmente por mulheres e cheias de crianças que faziam movimentos com as mãos e imitavam um som de bicho. Elas estavam ali pedindo comida e roupas, que eram atiradas aos montes, em sacolas de plástico, pelas pessoas do navio. "É uma forma de purificar-me. Lá na cidade eu tomo minha pinga e tá tudo certo, não tenho problemas..." dizia um companheiro de viagem que levou as sacolas já prontas para serem atiradas. Muito comovente essas cenas.
Na última noite da viagem vimos pela TV o show dos Rolling Stones na praia de Copacabana. Uma antena parabólica instalada no barco recebia as imagens e nos deixou mais próximos das mais de um milhão de pessoas que estavam no local. Ali, do coração da Amazônia, estavamos conectados àquele grande evento.
Chegamos em Belém do Pará, a terceira capital. Encontramos com nossas duas companheiras de viagem: as bicicletas e assim encerramos a primeira parte da Expedição Redescobrir. Vamos passar duas semanas aqui antes de partimos para São Luis do Maranhão e entrarmos na região nordeste.
