
Caruaru fica numa região bem montanhosa do sertão pernambucano. A pedalada até Recife seria de dois dias e 134 km. Sair pedalando com a bike reformada foi ótimo! Agora podia render melhor e aproveitar os embalos das descidas com as marchas mais pesadas funcionando. Sai num sábado e cheguei no fim do dia na cidade de Gravatá, charmosa cidade famosa pelo friozinho de inverno.
Dormi em Gravatá ao som do São João que era festejado em frente à pousada onde fiquei. Barulheira. Levantei cedo, comi um açai e voltei pro pedal. Logo recebi de presente a descida da Serra das Russas. Nove quilômetros de puro prazer. O vento batendo forte e uma garoa gelada batendo na cara.
Pra chegar em Recife naquele dia tive que pedalar bastante pra estar lá no fim da tarde. Fui recebido por um amigo que fiz no Hospitality Club, site de hospedagens pelo mundo, e fui muito bem recebido em sua casa. Quando uma família, como a de Tony, abre as portas de suas casas para me hospedar me enche de satisfação e realmente fico sem saber como retribuir tal gesto. A solidariedade que venho encontrando no caminho te me enchido de esperança de que ainda existe forte o sentimento de que afinal somos todos irmãos.
Recife é uma cidade encantadora. Há algo de único em suas formas e no astral que preenche suas ruas e pontes. Possui também uma cena artística bem marcante, preenchida da forte cultura pernambucana que se destaca com sua riqueza e exuberância. Pernambuco é um estado bem distinto. Passei 10 dias na cidade conhecendo e conhecendo.
Tinha que mover-me e voltar ao pedal. Próxima parada: Porto de Galinhas. Sai da cidade com o tempo bem fechado. Passei pela orla de Boa Viagem e segui na direção sul. Passando pela Ponte dos Carvalhos ouvi um estalo e a roda da minha bicicleta travou. Nunca tinha visto nada igual. O câmbio traseiro simplesmente deu um nó. O mesmo câmbio que o cara de Caruaru tinha acabado de me dar. A primeira coisa que pensei foi em voltar pra Recife pra fazer o reparo. Já tinha andado mais de 20 kms. Liguei para o Tony e ouvi o que precisava. "Vá em frente, não volte." Por acaso passaram uns caras por mim e indicaram uma oficina logo ali perto. Substitui meu câmbio traseiro por um de R$5,00!!! Nem sabia que existiam câmbios de R$5,00. Segui em frente por rodovias muito lindas com muitas plantações, principalmente de cana. Cheguei em Porto de Galinhas ainda antes das 4 da tarde. Porto é um grande centro turístico. Famosa pelas piscinas naturais que se formam na maré baixa a alguns metros da praia. Eu previa ficar uns 3 ou 4 dias pra explorar bem a região. Mas eu não podia imaginar o que me esperava... No segundo dia acordei me sentindo muito mal. O corpo doendo, mal-estar, dor de cabeça e princípio de febre. Fiquei o dia inteiro de repouso. No dia seguinte acordei um pouco melhor mas no fim do dia já estava mal de novo. Não me sentia com gripe porque não tossia nem espirrava, minha garganta também estava normal. No terceiro dia procurei o posto de saúde e comecei a tomar medicamentos. Eu já sabia o que era: dengue. Dor pelo corpo, febre alta, irritação na pele, falta de apetite... O dia inteiro na cama vendo TV, por quase duas semanas, esse é o relato de Porto de Galinhas. Assistindo um episódio das novelas saquei toda a trama e virei um noveleiro. Ah, também tinha a Copa pra me distrair. Tive muita sorte de conhecer pessoas que me ajudaram e diminuiram bastante o sofrimento da situação. O cronograma atrasou bastante e eu perdi o condicionamento que tinha adquirido nas pedaladas. Perdi quilos importantes e estava fraco. Tem horas que estou bem e a bike ruim, outros a bike ruim e eu bom... agora que a bike estava boa eu tinha que superar o declínio e voltar à boa forma. Ainda não estava pronto para pedalar então optei por sair dali de ônibus mesmo e ir até Maceió. Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antonio Conselheiro! Todos os Panteras Negras! Lampião, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também pedalaram um dia! |
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