Suor e lágrimas, sorrisos e dor. Chuva e sol, felicidade e melancolia. Planejamento e acaso, sossego e agonia. Confiança e dúvida, novos amigos e solidão. Dia após dia, quilômetro por quilômetro, o caminho trilhado até chegar em Salvador, mais que tudo, valeu a pena.Foram exatamente 6 meses, do dia 24 de janeiro ao dia 24 de julho, cruzando 12 estados e redescobrindo as nuâncias deste Brasil que é, fundamentalmente, múltiplo. Interiores de pessoas muito sábias em suas simplicidades e capitais que fundem o caos urbano e formidáveis heranças culturais.
Para completar a viagem, pedalei de Aracaju até Salvador em 5 dias, cruzando toda a extensão da belíssima Linha Verde, rodovia que serve de opção à BR-101 e corre mais rente ao litoral. Pra quem esperava moleza, se deu mal. A Linha Verde vendeu caro a conquista de suas subidas e descidas, sequer haviam trechos planos, a não ser no último dia, depois que passei pela Praia do Forte.
Para minha surpresa, na primeira noite, ainda no estado de Sergipe, quando cheguei à simpática cidade de Estância, fui reconhecido por uma garota que havia visto a entrevista que fizeram comigo na TV. Um acontecimento inesperado, ela só disse: "- Te vi na TV, queria muito te conhecer!" Não tive reação, algo simplesmente inusitado e inédito para mim. De alguma forma aquilo me encheu de entusiasmo pelo trabalho que vim realizando.
Cruzei a última divisa e cheguei no último estado desta expediçao. Agora as placas marcavam a derradeira quilometragem. Salvador ficava cada vez mais próximo, 315 km, 275 km, 231 km, 174 km... 55km, 10 km, 1 km...
Quando escureceu na terceira noite, estava no meio da estrada e tinha que chegar em Sauípe. Não enxergava nada e ainda meu pneu furou. Segui pelo faro até encontrar a pequena vila. Perguntei por hospedagem e logo disseram que ali não havia nada do gênero. Mas informaram: "- Pode acampar ai na praça mesmo, ali ninguém lhe bole." Me ofereceram um bom banho e um espaço para guardar a bicicleta de noite. Comi um belo PF e fiquei conversando com as crianças que estavam por ali e que logo viraram bons amigos, muito prestativos e cheios de histórias engraçadas, sem falar nos apelidos: Esmeralda, Pé-duro, Pato Roco, Carro Véio, Sariguê, Limão e Pum. O pai de um deles me ofereceu o espaço que havia em sua garagem e passei a noite por ali.
A última parada, escolhida ao acaso no mapa, foi Arembepe. Conhecida pela linda praia e pela Aldeia Hippie que sobrevive aos anos com algumas casas e sem luz elétrica. Conheci pessoas muito legais e uma garota especial: Vitoria, o mesmo nome que usei para batizar minha bike. Dali restava muito pouco para Salvador e, devido à chuva que caiu, passei duas noites numa cabana.
Bem-vindo à Salvador! Finalmente, aquele lugar que por tanto tempo ficou tão distante estava lá, sob meus pés. Difícil explicar a sensação por este objetivo cumprido. Relembrava cada momento que passei nestes meses e sentia uma enorme vontade de continuar rodando, tive a certeza de que a viagem não pararia ali. Mesmo que tenha minhas obrigações a fazer, coisas para realizar onde moro, logo voltarei à estrada, onde descobri uma sala de aula dura, porém recompensadora.
Mais que tudo, ali em Salvador, sentado assistindo o pôr-do-sol no Farol da Barra, tive uma certeza. Não importava estar ali. O que importou mesmo foi cada ação ao longo do caminho.